Quando passar para a ponta


Dr. Victor K. Lin

Quando uma aspirante a bailarina deve subir na ponta? Infelizmente, passar para a sapatilha de ponta pode ser um ritual de passagem, e as pressões sociais dentro do ambiente do balé podem fazer esse momento parecer mais importante do que é na verdade.

Diferentes opiniões de especialistas
De acordo com o Dr. Justin Howse, médico das escolas do Royal Ballet e da Royal Academy of Dancing de Londres, “com certeza existem algumas bailarinas conhecidas que não tiveram força suficiente para começar o trabalho de pontas até passarem dos 16 anos, e isso não causou nenhum prejuízo nas suas carreiras”. Da mesma forma, George Balanchine, grande e renomado coreógrafo, disse: “Não há motivo para colocar uma jovem bailarina na ponta se ela não consegue fazer nada ao chegar lá!”

Historicamente, a decisão de passar para a ponta costuma ser feita pelo professor de balé. Em muitos programas de treinamento formais e tradicionais, um processo de eliminação ocorria tanto com base na habilidade quanto no corpo de bailarina “ideal”. Bailarinas que não eram consideradas capazes de uma carreira professional simplesmente não avançavam e, com frequência, eram excluídas do programa. Mas esses critérios não têm base nas escolas de dança atuais, e as variações nos critérios que existem hoje levaram a confusão e controvérsia mesmo entre os especialistas.

O Dr. James Garrick da Divisão de Medicina da Dança da Medicina do Esporte do Hospital St. Francis em São Francisco, na Califórnia, acha que força adequada é necessária. Isso inclui apenas a habilidade de fazer um bom passé na meia ponta e a habilidade de subir do grand plié no centro e ficar com os joelhos retos, sem balançar e sem precisar arrumar os pés.

O Dr. Richard Braver, ex-consultor médico da Capezio, acha que a bailarina deve ser capaz de ficar na meia ponta por 45 segundos em cada pé, sem vacilar nem balançar.

Celia Sparger, fisioterapeuta e conhecida escritora sobre anatomia no balé, acha que aulas uma vez por semana nunca são suficientes para o trabalho de ponta. Ela também prefere excelente técnica na meia ponta, sem tendência de entortar a ponta do pé para dentro ou para fora, nem enrolar ou apertar os dedos.

De acordo
Idealmente, a base para começar o trabalho de pontas é a habilidade de executar bem toda a técnica na meia ponta antes de passar para a ponta. A Associação Internacional de Ciência e Medicina da Dança (IADMS) tentou levar algum consenso para a área e divulgou sua declaração em 2009 (link para o artigo completo nas referências abaixo). Ela afirma que as bailarinas devem estar pelo menos no seu quarto ano de treino, pelo menos duas vezes por semana, depois dos oito anos de idade, em um programa desenvolvido para treinar bailarinas profissionais. Isso serve para desenvolver força, amplitude de movimento e técnica, a fim de que tenham “bom controle do tronco/abdômen/pelve, alinhamento correto das pernas e flexibilidade suficiente no tornozelo e para esticar o pé”. Raios-x para ver o status da placa do crescimento são considerados desnecessários. Ela enfatiza que passar para a ponta cedo demais prejudica o desenvolvimento da técnica, pode levar a autoconfiança e, ainda pior, pode trazer o risco de machucados.

Uma pesquisa do Centro Harkness de Ferimentos de Dança de Nova York descobriu que a força e o controle do tronco/pelve são tão importantes para a técnica correta de dança quanto a estabilidade do tornozelo, especialmente na ponta. Mais especificamente, um estudo com bailarinas prontas para a ponta (escolhidas por professores importantes) sugeriu que as bailarinas que estavam preparadas para o trabalho de pontas:

  • Tinham 90 graus de flexibilidade ao esticar o pé para baixo — uma verificação simples é passar no teste do lápis (veja a imagem 2)
  • Conseguiam se equilibrar no passé relevé por cinco segundos
  • Conseguiam manter a forma e o equilíbrio ao fazerem uma pirueta en dehors da quarta para a quarta posição
  • Conseguiam manter uma boa forma enquanto pulavam sobre uma perna só por pelo menos sete de 16 repetições contínuas
  • Conseguiam executar pelo menos três de cinco manobras de “avião” para cima/para baixo (imagens 3 e 4) sem perder o equilíbrio e a forma (manter o nível da pelve, manter o alinhamento do quadril com o joelho e não deixar o pé ceder)

Imagem 2:
Teste do lápis. Ângulo de 180° entre a tíbia e a parte de cima do pé.

Imagem 3:
Avião para cima


Imagem 4:
Avião para baixo



Sparger escreveu um artigo excelente, bom para pais e jovens bailarinas, chamado “Por que não posso subir na ponta” (Why Can’t I Go On My Toes), disponível on-line no site da Capezio (link nas referências abaixo). De acordo com Janice Barringer e Sharon Schlesinger, autoras de The Pointe Book, o pé ideal é largo, com os primeiros dois ou três dedos do mesmo tamanho. Segundos dedos longos trazem dificuldades. Assim como pés com a ponta estreita e arco de pé alto (fazem os dedos se enrolarem para baixo). Flexibilidade limitada no tornozelo pode levar a problemas no tendão de Aquiles, porque o osso do calcanhar é empurrado contra o tendão na ponta. Pés com pronação (veja a imagem 5) levam a joanetes e problemas longitudinais no arco do pé, enquanto pés com supinação (veja a imagem 5) levam a torções no tornozelo; as duas condições podem ser evitadas com exercícios de fortalecimento.

Imagem 5


Nem todos podem ter o corpo ideal, mas todos devem ter técnica ideal antes de subirem na ponta. Aqueles que não têm o formato de pé ideal precisam prestar atenção especial no que calçam. Quem não tem muita flexibilidade no tornozelo precisar saber que isso afeta o equilíbrio e coloca estresse no resto do corpo durante a dança.

Por fim, pesquisadores da Harkness e outros apontam que também é importante tirar a bailarina da ponta durante um estirão de crescimento. Frequentemente, o crescimento muscular não acompanha os ossos e, assim, a flexibilidade terá de ser recuperada com o tempo e com alongamentos.

Além disso, mudanças no centro de gravidade e na proporção dos braços e pernas vão afetar o equilíbrio e a técnica. A técnica certa deve ser recuperada com o pé todo no chão e na meia ponta antes de voltar para a ponta.


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O Dr. Victor K. Lin é especialista certificado em Medicina Física e Reabilitação com interesse em Medicina da Dança. Ele atua em Eugene, no Oregon, na Rehabilitation Medicine Associates of Eugene-Springfield, PC.
Download do artigo original: http://www.rmaeug.com/whentogoenpointe.pdf

Links
1. “When Can I Start Pointe Work? Guidelines for Initiating Pointe Training, An IADMS Resource Paper” by David S. Weiss, M.D., Rachel Anne Rist, M.A., and Gayanne Grossman, P.T., Ed.M. Artigo completo:
2. “Why Can’t I Go On My Toes” by Celia Sparger, PT:


Bibliografia
1. “Principles of Dance Medicine, Clinical Management of the Dancer Patient”, an Educational Conference at the Harkness Center for Dance Injuries, July, 2010.
2. Dance Injury & Prevention, 3rd Edition by Justin Howse, MD. Routledge Publications.
3. The Pointe Book, shoes, training & technique, 2nd Edition by Janice Barringer and Sarah Schesinger. Princeton Book Company, 2004.
4. Dancing Longer, Dancing Stronger by Andrea Watkins and Priscilla Clarkson. Princeton Book Company, 1994.
5. Preventing Dance Injuries, 2nd Edition by Ruth Solomon, John Solomon, and Sandra Cerney Minton. Human Kinetics, 2005.

(Artigo traduzido e adaptado)

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